Entrevista
com Luis Ernesto Tavares
A ação direta e as comissões de
base são as grandes armas dos trabalhadores
Libera
Neste
1º de Maio – Dia de Luto e Luta – o Libera oferece
aos leitores o testemunho de um companheiro profundamente participante
nas lutas sociais. Luiz Ernesto Tavares na entrevista a seguir conta
um pouco de sua longa trajetória engajada na categoria dos
petroleiros, o que já lhe valeu diversas punições
pelos donos da situação. Conta ainda Tavares como
através da prática se encontrou com as idéias
anarquistas e lança um alerta para que os trabalhadores fiquem
atentos àqueles que se dizem seus defensores mas que, na
realidade, apenas repetem (e desta vez em farsa) antigos esquemas
de dominação. Manifesta nosso entrevistado sua convicção
na ação direta e na organização de base
como as grandes armas de combate dos trabalhadores.
Libera
- Tavares, como foi o início de sua militância?
Tavares - Começou em 1984. Em 1982 entrei
para a Petrobrás. Em 84 houve um famoso acidente na plataforma
de produção de Enchova, comovendo a base, que sentiu
que o sindicato oficial não fazia nenhuma questão
de estar em Macaé onde ocorreu o desastre. A partir deste
acidente, em 85 organizamos pela base representantes tirados em
cada plataforma, comissões para organizar uma associação
da categoria. Como ainda estávamos na ditadura, registramos
essa associação em cartório, tiramos uma diretoria,
que a representaria, mas tendo sempre em vista que ela teria que
ser uma associação da base. Participei dessa diretoria,
que na verdade era composta apenas por um presidente, um secretário,
que era eu, e mais dois suplentes. Havia também um conselho
fiscal com quatro membros. Agora, a partir do momento em que formamos
esta associação, começamos, tendo como ponto
de partida as comissões de base, a levantar bandeiras. Então
lutamos pela redução de jornada que na época
era 1 por 1 (um embarque e uma folga), ou seja na verdade era de
14 dias por 14 dias. Levantamos a bandeira da escala do “1
por 2” (um trabalhado, dois de folga). A nossa proposta foi
amplamente aceita. Transformou-se, então, na prática
na reivindicação de “10 por 20” (trabalhar
10 e folgar 20). A partir daí começamos a nos empenhar
cada vez mais na organização dos trabalhadores. Foi
então que se iniciou a CUT. Seu primeiro congresso foi em
85 mesmo. Fui tirado como delegado e ali compareci como representante
da base. Então a CUT nasceu nessa visão de base convivendo
com representações sindicais de acordo com o velho
estado de coisas. Inclusive uma das grandes bandeiras da época
era tirar os sindicatos da tutela do Estado. Então a CUT
nasceu dessa forma, pela base, e querendo sair da tutela do Estado.Isto
para mim era uma questão de princípios. Então
era uma bandeira a se empunhar.
Libera – Houve um momento em que você se interessou
pelas propostas da então Convergência Socialista?
Tavares - Sim, isso ocorreu em 1987. O Lula, já
se formando como Articulação Sindical, não
dava muita importância às organizações
de base, inclusive houve uma greve na Fiat aqui no Rio que o Lula
simplesmente ignorou e era uma greve feita pelas organizações
de base. Então, a partir deste momento, a Convergência
colocava essa continuidade da organização pela base,
dando apoio à associação, então fui
para a Convergência. Em 88 houve um Congresso Nacional da
CUT, o terceiro, em que a Articulação Sindical, querendo
acabar com o “perigo” das organizações
de base, propõe que a CUT seja só composta por representantes
sindicais e a Convergência na época foi contra isso.
O setor sindical da Convergência lutou nesse congresso contra
esse tipo de manobra do estatuto.Só que, terminado o Congresso,
a Convergência continuou na CUT e com isso de 88 até
os dias de hoje a CUT continua a combater o projeto da organização
pela base.
Libera – E como se desenvolveu esta situação?
Tavares – Em 1988 a associação
transformou-se em sindicato que passava a se chamar Sindipetro NF
(Norte Fluminense), também sem vínculo com a estrutura
do Ministério do Trabalho. Apesar de termos colocado o estatuto
em cartório, não dávamos muita atenção
à questão da legalização no Ministério,
apesar de também termos um processo apenas para dar conta
das formalidades. Em 90 eu já havia saído da Convergência
e então aconteceu a eleição do Sindipetro RJ.
Nesse contexto, uma parcela do Sindipetro NF, da base, compõe
com a oposição cutista do Rio de Janeiro para formar
uma chapa contra a situação encastelada no Sindipetro
RJ. O PSTU não rompe com este esquema. Eu fui convidado como
representante da base mas me neguei a participar, entrar nessa estrutura.
Em 95, após a oposição cutista e de base (Macaé)
vencerem a eleição, acontece a separação
do sindicato em Sindipetro RJ e Sindipetro NF. Este último
que formalmente tivera início com o nosso registro, na realidade,
vinha desde 85.
Libera - E as comissões de base? Continuaram?
Tavares - Sim, pois não há como desarticulá-las,
pois quem faz as greves são as organizações
de base. Não há condição de um diretor
sindical ir na base, apesar de haver alguns diretores em algumas
plataformas, quem organiza mesmo é a base que sai em greve
de ocupação, isto é importante destacar. Esta
forma de luta vem desde 88 e foi organizada pelo nosso antigo NF.
Greve de ocupação com parada de produção
na Petrobrás, quem fez pela primeira vez em 88 foi o antigo
NF, que era, como já nos referimos, uma organização
de base. Ainda em 88 organizamos, pela primeira vez no país
no ramo petroleiro, como reforço para a luta global na região,
uma parada de produção por tempo determinado, de 2
horas.
Libera – E a Convergência, como atuou daí
para a frente?
Tavares - A Convergência, posteriormente
organizada sob a legenda do PSTU, permaneceu na CUT até 2004,
quando se iniciou a proposta da CONLUTAS que a meu ver é
uma repetição muito pobre do que era a CUT antes,
porque a CUT em seu nascedouro propunha organização
pela base e o fim da vinculação com o Estado. Atualmente,
apesar da contundência verbal em seus comunicados e discursos,
eu não a vejo desempenhando qualquer papel de âmbito
revolucionário.
Libera - E foi por aí que você se tornou anarquista
? O que te levou a esta opção ideológica?
Tavares - Sim. O que me levou ao anarquismo foi
observar que sua prática é sempre pela organização
da base autogestionária e pela ação direta
(greves). Inconscientemente eu já estava dentro da visão
anarquista. A política “dos outros” já
me parecia falsa quando pude observar que não contemplava
uma organização revolucionária dos trabalhadores.
Isto ficou claro naquela época e a gente vê hoje em
movimentos como os recentemente acontecidos na França em
que a CNT anarquista, organizada pela base, está atuando
junto com outras entidades libertárias. O povo, a base, conseguiu
implodir uma lei ministerial através da ação
direta, com o concurso de 2 greves gerais, o que é importante
frisar. A partir do momento em que saí da Convergência,
logo a seguir vejo os anarquistas em uma passeata, li alguma coisa
a respeito, não muito mas o suficiente e comecei a discutir,
atraído pelas propostas de ação direta, as
greves de ocupação, coisas de que já tínhamos
uma prática na Bacia de Campos e a teoria anarquista confirmava
tudo isto.
Libera - É interessante você se aproximar do
anarquismo, que desmascara a farsa institucional do sufrágio
universal, em 1989, com a perspectiva da primeira eleição
direta para presidente, o que levou muita gente a ter esperança
no caminho eleitoral...
Tavares - Já tinha participado de outras eleições
com a Convergência. Estou convencido de que realmente não
podemos entregar nossas vontades a nenhum representante. O descompasso
entre as lutas dos trabalhadores e política eleitoral parece
estar bastante evidente para o movimento sindical atualmente. Agora
mesmo podemos ver a questão dos petroleiros que praticamente
não vão ter campanha em função da eleição
agora para presidente da república. Foi assinado um acordo
para a categoria válido por dois anos, quer dizer este ano,
eleitoral, não tem acordo, só o dissídio, reajuste
sindical. Penso que tal situação, que vincula toda
uma organização de classe a um calendário eleitoral,
é fruto da capitulação diante da democracia
burguesa. O que poderia ser diferente se, como hoje na França,
apelássemos para as organizações de base para
que elas tirassem seus delegados e os enviassem como representantes
de negociação para a formação de um
quadro mais favorável a autonomia e autodeterminação
da classe. Hoje nos petroleiros temos importantes demandas a serem
encaminhadas. Reivindicações como a escala de “1
por 2” e itens de segurança nas plataformas. Neste
momento nas plataformas, diferente do que pregam as diretorias burocratizadas,
a classe deveria estar mobilizada para mostrar a necessidade da
luta e não do atrelamento aos meios formais de representação
oferecidos pela burguesia.
Libera - Voltando a 1988: como foi o processo da greve daquele
ano e sua primeira demissão da Petrobrás?
Tavares - Em 88 eu era coordenador do Sindipetro
NF, e já estava demitido antes mesmo da greve. Eu era representante
da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes)
e fui demitido mesmo assim. Uma das pautas da greve de 88 era o
meu retorno, foi a tal greve por tempo determinado, por 2 horas.
Esta paralisação serviu de referência para outras
greves por tempo indeterminado. No movimento de 88 houve demissão
de outros companheiros que fizeram a greve, mas eles retornaram
imediatamente, a minha reintegração não foi
aceita. Creio que por ser coordenador do NF. Voltaria, então,
somente em 90.
Libera - E o que aconteceu?
Tavares - Em 90 houve o Plano Collor. Sou demitido
novamente nesta conjuntura. Quando os companheiros voltam, reintegrados
por uma Anistia, em 92 eu continuava demitido e só com a
greve de 94, que foi uma greve com parada de produção
também na Plataforma por tempo indeterminado, eu retornei.
Os companheiros de Minas Gerais que colaboraram com a greve foram
acusados injustamente de sabotadores e não tiveram essa reintegração.
Eu retorno com mais um grupo que já havia sido demitido anteriormente
em 88 e 90, principalmente o pessoal que havia sido demitido em
90. Nós retornamos e os companheiros de Minas não
foram reintegrados porque Itamar colocava que eles eram sabotadores.
Em 95 retomamos a greve por não cumprimento do acordo de
94 e a reintegração dos companheiros de Minas. Esta
greve de 95 foi a mais forte, foram 45 dias de paralisação.
Foi a primeira vez em que Cubatão entrou em greve com parada
de produção. Foi a primeira refinaria que entrou em
greve com parada de produção. Mas houve um acordo
de Vicentinho (CUT) com Fernando Henrique que fez com que houvesse
uma degola enorme entre os militantes mais destacados, com quase
100 demitidos, inclusive eu, e quase mil punidos na Bacia de Campos.
Então há um refluxo do movimento sindical em função
desse acordo feito pela CUT com Fernando Henrique. É importante
ressaltar que a opção de greve de ocupação
com parada da produção, adotada pelos companheiros
da Refinaria de Cubatão, foi respaldada pela nossa experiência
da Bacia de Campos. Em delegação propusemos isto em
Cubatão e ganhamos esta proposta, tanto que Cubatão
fez a greve de ocupação.
Libera - E esta “degola” reverteu?
Tavares - Em 2001, quando já se achava que
tudo estava perdido, a Bacia de Campos entra novamente em uma greve
de ocupação com controle da produção
por tempo determinado. Mas para Fernando Henrique isto é
um baque. Como é que uma “vanguarda” inteira
que tinha sido degolada de repente em 2001 retorna com uma greve
de ocupação? A greve de ocupação com
parada de produção mostrou-se uma arma tão
eficaz dos trabalhadores que até a burocracia sindical, tentando
fugir do rótulo de pelega, como no ano passado, propôs
parte disto à categoria. Esta forma de luta, que é
uma forma de ação direta, é que é eficaz.
E sabemos que ela vai ser completamente vitoriosa quando nas negociações
estiverem os representantes das comissões de base. Porque,
enquanto delegarmos aos representantes sindicais de sindicatos estruturados
pelo Estado e a ele atrelados, vão existir sempre acordos
muito por baixo, muito aquém das expectativas dos trabalhadores
e por muitas vezes, como na greve de 95, com acordos traidores e
que degolam companheiros.
Libera - E os demitidos de 95?
Tavares - Recebemos um apoio do movimento anarquista
muito grande. O movimento anarquista sempre esteve presente desde
a ocupação do Edise (Edifício Sede da Petrobrás
no centro do Rio) em 92 para 93. Na anistia de 2004 também
recebemos apoio total, inclusive nos acampamentos à porta
do Edise que reivindicavam nossa reintegração à
empresa e sempre propondo a ação direta dos trabalhadores.
O anarquismo sempre esteve com as lutas dos trabalhadores de uma
forma honesta e responsável, não colocando a questão
da política partidária, não querendo nenhum
fruto para a política partidária, mas sim para contribuir
para a organização de um sindicalismo que seja de
combate às classes dominantes.
Libera - E como foi a Anistia de 2004?
Tavares - Em 2002 iniciamos o debate a respeito
desta questão. No governo Fernando Henrique existia uma lei
em tramitação no Congresso cujo objetivo era implodir
a organização independente dos petroleiros. No início
do governo Lula não se falava em Anistia e sim em readmissão,
com claro propósito de diminuir o impacto das conquistas.
Mas em 2003 já estava clara a tentativa do governo em substituir
a vitória de um movimento de base, o da Anistia, por um processo
administrativo e parlamentar configurado em simples readmissão.
Então nós anarquistas colocamos que não, o
que precisamos sim era da Anistia. Alguns companheiros achavam que
tinha que ser feita uma lei de Anistia e nós nos defendíamos
a ação direta para conseguí-la. Considerávamos
que se ficássemos dependendo de lei, de acordos entre os
parlamentares, íamos ser prejudicados.
Libera - “Pede ação, não pede
lei”.
Tavares - Não só os demitidos da
greve de 95. Nossa proposta era que não só os demitidos
de 95 mas todos os que tinham sido perseguidos ou prejudicados pelo
neo liberalismo fossem anistiados também. Esta era a proposta
geral. Não conseguimos, mas conseguimos pelo menos a Anistia
dos companheiros da greve. Não conseguimos um acúmulo
de forças para lutarmos neste sentido.e muitos militantes
já estavam até satisfeitos com a questão de
voltar apenas o pessoal da greve de 95 anistiado. A luta foi vitoriosa
e aí vem o aspecto do papel que cada um desempenhou nesta
questão. Neste momento em que os anarquistas questionavam
uma lei que iria dar apenas a readmissão, enfrentaram uma
Articulação Sindical, já no governo, que aceitava
nossa readmissão, e ao mesmo tempo o pessoal do MTS que ficou
em cima do muro. Nos primeiros meses, o MTS, tendência sindical
do PSTU, não se posicionou efetivamente a favor de nossa
proposta de Anistia. Isto só acontece durante o acampamento
em frente ao Edise, em maio de 2003.
Libera - Você faria outras críticas ao MTS/CONLUTAS?
Tavares - Eu digo é que eles nunca se posicionaram
em favor das comissões de base, e isto já vem de longe.
Não são a favor das comissões de base em sua
forma autônoma. Querem as comissões de base sempre
ligadas ao sindicato, e não de forma autônoma como
devem ser. Comissões de base, o nome já diz tudo,
são organizações pela base. Tentam sempre manter
a estrutura sindical como geradora de tudo. E uma estrutura atrelada
ao governo. Eles nunca colocaram isto de uma forma bem clara. Em
2004 estas mesmas pessoas continuavam compondo com a CUT, isto é,
com a posição verticalista do sindicalismo. Este é
o ano em que começa a aparecer a CONLUTAS.
Libera - Você então compararia a CONLUTAS com
a CUT em sua fase inicial?
Tavares - É uma repetição
mais recuada do que era a CUT no início, porque a CUT defendia
as comissões de base e o rompimento com a estrutura sindical
atrelada ao Estado. A CONLUTAS não coloca nada disso. Inclusive
na questão das delegações eles defendem propostas
opostas a um sindicalismo autônomo.
Libera - Então seria até um retrocesso?
Tavares - Com certeza. Eu não embarcaria
nessa. Estão aquém da CUT em seu início. Não
dessa CUT de hoje, claro. Mas no sentido sindical revolucionário
que a CUT apresentou em suas origens, está muito abaixo.
No âmbito revolucionário, pois havia o setor conservador,
ligada aos sindicatos atrelados, que eram o Lula (metalúrgicos),
o Olívio Dutra e o Gushiken (bancários) e Jacó
Bittar (petroleiros). Questões importantes para os trabalhadores
foram colocadas no momento inicial da CUT. Para que se tenha uma
idéia foi em um curso de formação sindical,
realizado em Campinas, que tive o primeiro contato com idéias
anarquistas. O sindicato dos petroleiros de Campinas era nossa referência
na época, pois havia feito uma greve durante a ditadura,
e isto nos comoveu muito. Parece que em Mataripe (Bahia) houve uma
greve com parada de produção, que teria sido a primeira,
antes mesmo de Cubatão. O Sindipetro de Campinas era ligado
ao Jacó Bittar, seu presidente demitido logo depois da greve
de 1983. Naquele curso de formação se falou no sindicato
anarquista no início do século XX e foi a primeira
vez que o anarquismo me chamou a atenção.
Libera - Mas aproveitando o seu comentário, por que
você, naquela oportunidade, não foi atraído
por outra ideologia de esquerda, como, por exemplo, o trotskismo?
Tavares - Para analisarmos o trotskismo teríamos
que nos remeter à Revolução Russa em 1917,
onde os sovietes, que eram conselhos de trabalhadores autogestionados
pelos revolucionários de primeira hora, não só
anarquistas, foram abafados, trucidados pelo Exército Vermelho
cujo comandante na época era Trotsky. E logo depois, na questão
do sindicalismo após a morte do Lênin, o Trotsky sempre
colocou que o sindicato tem que estar do lado do partido. Então
essa visão de partido é que não pode ter dentro
do sindicalismo, principalmente do sindicalismo revolucionário.
Nós, anarquistas, combatemos isso, porque temos a certeza
de que o sindicalismo revolucionário tem que ser um eterno
combate contra qualquer dominante, seja de que lado diga que esteja
e de que cor se proclame. A luta dos trabalhadores tem que ser autogerida,
como houve no sindicato polonês Solidariedade. Autogestão
nos locais de trabalho, na direção. Isto é
oposto a qualquer pensamento marxista, inclusive o trotskismo. O
marxismo considera que o partido é que tem de estar dirigindo
tudo. É o chamado centralismo democrático que, na
verdade, é o domínio de alguns que se julgam cabeças
iluminadas e que julgam saber as respostas para todos os problemas
da humanidade. Então é isto que combatemos, porque
somos a favor de uma forma de estruturação social
que é a autogestão, o federalismo, sem nações,
todos os povos organizados em federações. Esta á
proposta anarquista, oposta à política marxista, à
visão leninista de centralismo democrático. Tanta
coisa já aconteceu para que a história confirme o
acerto das teses anarquistas.
Libera – Como você vê os recentes acontecimentos
na França?
Tavares - Este caso da França fecha bem
o que estou tentando dizer. Você vê que ali havia uma
lei promulgada, tudo já decidido pelo governo. Então
vem o povo, os sindicatos autônomos, as organizações
de base, que vão para rua, fazem uma greve geral e impedem
que os sindicatos verticalizados façam acordos com o governo.
Com o povo na rua, desmoralizam o governo e qualquer tipo de acordo
até então feito. E aí se consegue esta grande
vitória, que é a de derrubar uma lei. Porque as leis
podem ser derrubadas pelo povo e pelas organizações
que combatem o capitalismo. Está aí provado à
eficácia da ação direta. Mais um exemplo, na
prática, que a ação direta é a grande
arma dos trabalhadores. E não é aquela coisa de falar
“Ah, não, mas esta é a organização
natural das massas”. Mas não é natural, é
preciso passar informação, discutir com as pessoas,
fazer com que elas percebam a realidade dos fatos. Isto aconteceu
lá. Natural é só a revolta, não a mobilização.
Então, isto está provado, tanto para os capitalistas
quanto para o pessoal da esquerda marxista. Neste contexto é
que colocamos a questão do 1º de Maio. Lembramos que
dos oito mártires executados, sete eram anarquistas e estavam
à frente da luta pela redução da jornada de
trabalho.
Primeiro de Maio é dia de luto e luta!
* Este
artigo foi publicado no número 134 do informativo Libera
da Federação Anarquista do Rio de Janeiro.